| Um
problema que incomoda muitos músicos é o verniz
atrás do braço da guitarra. Alguns deles afirmam
que quando suam, a “mão agarra” por causa
do produto usado, restringindo um pouco o movimento das mãos
e prejudicando a execução de solos e ritmos.
Com o objetivo de sanar essa dificuldade, algumas guitarras
trazem o braço apenas encerado, mas o verniz não
serve apenas para dar aquele brilho, mas sim para impermeabilizar
a madeira e evitar que o suor penetre pelos poros da mesma.
Caso contrário, a guitarra pode ganhar manchas, muitas
vezes irreparáveis, e ficar mais exposta à formação
de fungos - um braço “fungado” fica com
marcas esverdeadas e um aspecto horrível. Quase sempre
esta marca é muito profunda e nem mesmo com uma lixa
é possível reverter a situação.
Se você quer evitar que sua mão fique “presa”
no braço da guitarra por causa do verniz, recomendo
que substitua essa proteção por uma leve camada
de um impermeabilizante fosco. Na hora de tocar, a sensação
será a mesma de um braço encerado, só
que sem o risco de manchas. É possível ainda
lixar moderadamente o próprio verniz com o intuito
de reduzir sua espessura e brilho, e poli-lo novamente com
massa de polimento e cera. O resultado é semelhante
ao verniz fosco citado acima. É preciso ressaltar que
o aparecimento de manchas esverdeadas em braços encerados
não é uma regra, já que a ocorrência
de fungos não está ligada somente ao tipo de
madeira ou de cera, mas sim ao suor do guitarrista, que pode
ser ácido demais e excessivo. Independente da medida
escolhida para contornar esse problema, lembre-se que os procedimentos
devem ser feitos por luthiers, profissionais familiarizados
com vernizes e outros produtos.
Outro problema que incomoda bastante os guitarristas são
os braços “gordinhos”, espessos, que dificultam
a execução de solos e ritmos, tornando a prática
bastante cansativa. Os argumentos sobre a espessura dos braços
giram em torno do gosto pessoal de cada músico. As
medidas mais apreciadas são as que ficam em torno de
21 mm., obtidas com um instrumento de precisão chamado
paquímetro (foto1). Problemas com braços “obesos”
são resolvidos quando achatamos um pouco seu centro
(foto 2), reduções geralmente feitas com uma
pequena grosa (foto 3) ou alguns formões (foto 4).
Após o uso dessas ferramentas, é preciso lixar
o instrumento e retirar os riscos, melhorando o acabamento.
Em seguida, uma nova camada de verniz deve ser aplicada para
proteção. Tal operação também
só deve ser feita por um profissional capacitado e
de confiança, pois é um serviço de alto
risco. Um luthier irá calcular com precisão
quanto o braço poderá ser gasto, pois o tensor
do instrumento está localizado entre a escala e o braço.
A retirada excessiva de madeira pode comprometer o instrumento
tanto no aspecto estético quanto em sua funcionalidade,
às vezes de forma irreparável.
Um
outro recurso que vem sendo usado com mais freqüência
é o “escalope”, técnica que consiste
em retirar um pouco da madeira da escala entre os trastes,
para que a mesma assuma uma forma côncava, como uma
concha (foto 5). Este recurso é aplicado com o intuito
de facilitar a execução de solos, uma vez que
os dedos deixam de entrar em atrito com a madeira retirada,
tornando mais fácil a prática de técnicas
como vibratos e bends - um dos pioneiros da guitarra escalopada
foi Ritchie Blackmore. Quando bem feito, o escalope não
oferece qualquer perigo ao braço do instrumento. Recomendo
que ele seja feito da primeira à última casa
pois, se aplicado de forma parcial (da 12ª casa em diante,
por exemplo), pode tirar o equilíbrio do braço,
causando pequenas torções ou funcionamento irregular
do tensor.
Algumas precauções ainda podem ser tomadas para
garantir a segurança do braço da guitarra. Evite
fazer uma concavidade superior a três milímetros.
Independente da espessura da escala, recomendo essa medida
para diminuir possíveis riscos de torções
e empenamentos. Aprofundamentos maiores que isso em nada melhoram
a performance do instrumento e acabam atrapalhando a execução
de acordes. É preciso ainda verificar se não
há indícios desse problema que podem piorar
após o escalope. Se houver algo do tipo, conserte antes
de aplicar essa técnica. Seu luthier procederá
uma retífica da escala, talvez com uma troca de trastes
(veja na CG 65). É bom que a profundidade de cada casa
seja a mesma, sem variações discrepantes, para
que a escala não fique descompensada em sua estrutura.
Seu luthier saberá tomar todas essas precauções
para que seu instrumento saia “ileso” após
a escalopagem.
Existem várias formas de escaloparmos uma escala. Descreverei
aqui uma das mais comuns (Se você quiser saber mais
detalhes sobre o assunto, verifique a minha coluna na edição
52):
1) Com ajuda de um lápis, traçamos uma linha
na lateral da escala do braço, para que seja estipulada
a profundidade do escalope. Nenhuma casa deve ser mais cavada
que a outra (foto 6, na página anterior);
2) O luthier verifica a necessidade de retirar as marcações
de casas da escala;
3) Com o auxílio de uma grosa redonda, começamos
a gastar o centro das casas a serem escalopadas (foto 7);
4) Utilizando um formão, começamos a dar forma
côncava às casas (foto 8);
5) Usando lixas de madeira de números 150 e 220 - ambas
enroladas em pequenos cilindros de madeira -, damos acabamento
ao escalope (foto 9);
6) Recolocamos as marcações (caso tenham sido
retiradas) e damos melhor acabamento, agora usando lixas 220
e 240, respectivamente.
Pronto! A grosso modo, está pronto o escalope.
Estes
passos servem apenas para vocês conhecerem um pouco
mais sobre o procedimento. Não se arrisque a escalopar
sua guitarra sozinho, nem peça a alguém que
não seja acostumado a realizar tal tarefa. Qualquer
erro pode causar danos irreparáveis em seu instrumento.
Antes de fazer modificações em sua guitarra,
veja se o verniz ou a espessura do braço do instrumento
o incomoda. Pense se o escalope é realmente a ajuda
que você espera. Converse com seu luthier de confiança
ou escreva para nós.
Um
grande abraço! |