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Guia de compras I

Pretende comprar uma guitarra nova? Antes de ir à loja confira algumas dicas e não corra o risco de comprar um instrumento rachado, com o braço torcido ou até mesmo recauchutado
Por: Edmar Luighi
Fotos: Tatyana Alves
Cover Guitarra Edição 98 - Jan/03


Nesta sexta edição de dúvidas mais freqüentes, iremos nos ater a apenas uma questão: como analisar a condição do instrumento no momento da compra? Essa foi a dúvida mais recorrente em emails recebidos nos últimos três meses. Listei uma série de itens que devem ser verificados no momento da compra e que não necessitam que o músico esteja munido de nenhum equipamento especial para tanto.

É comum ouvir queixas de guitarristas dizendo que seus instrumentos estão “duros”, não afinam, apresentam rachaduras, maus contatos, cordas altas, entre outros problemas. Os diagnósticos apresentados pelos técnicos - quando a causa não for falta de regulagem -, são: captadores defeituosos, braço empenado ou torcido, trastes que já foram gastos para esconder defeitos na escala, etc. Embora muitas vezes o consumidor seja reembolsado pela garantia oferecida pelo fabricante, o tempo gasto e a dor de cabeça que esses problemas provocam não têm preço. Acontece também do músico esperar muito tempo para procurar uma ajuda especializada, aí quando detectado o problema, a garantia já expirou.


Mas às vezes a qualidade do produto é sofrível mesmo. Embora não apresente nenhum defeito, ele jamais ficará bom, nem mesmo depois de uma minuciosa regulagem feita por um luthier profissional. Em todos esses casos, o descontentamento poderia ter sido evitado se o músico tivesse informações mais criteriosas sobre o produto na hora da compra. Vamos ver o que é preciso para não comprar gato por lebre.

Em primeiro lugar, é preciso estar ciente do tipo de instrumento que o seu som e estilo exigem. Caso seja iniciante e não possua tal informação, um boa dica é conversar com seu professor, com um músico profissional ou até mesmo comum luthier para obter dados fundamentais na hora da escolha do seu instrumento. Só depois de ter certeza do que quer efetue a compra.

Corpo

Quando pegar um instrumento que o agradou visualmente, pergunte ao vendedor ou verifique as especificações técnicas que geralmente acompanham o produto. Certifique-se do tipo de madeira com que o corpo do instrumento foi feito. As mais nobres são normalmente mais caras e na maioria das vezes proporcionam timbres melhores. Dentre elas destaco as mais comuns: alder, ash, maple, mogno, bass wood e cedro. O corpo também pode ser feito de madeiras nada nobres que são compensado e MDF - madeiras não maciças coladas em lâminas e uma espécie de aglomerado de materiais. Não existe nada errado em ter um instrumento com corpo feito desse tipo de matéria-prima, embora eles não proporcionem som com grandes sustentações. Normalmente instrumentos feitos desse material, por serem mais baratos, tornam-se uma boa opção para músicos iniciantes ou com menor poder aquisitivo.

Outro item importante a ser observado no corpo do instrumento é se ele não apresenta nenhuma rachadura em algum dos lados. Mesmo pintado, é possível ao olhá-lo contra a luz, ver alguma evidência de rachadura ou possível rachadura. Cuidado para não confundir essa impressão com a emenda que muitos corpos possuem. As emendas sempre são retas e na maioria das vezes estão no centro do corpo ou nas extremidades laterais, sempre na vertical.

Braço

O braço normalmente é feito em maple com escala em jacarandá; maple com escala em ébano; ou todo em maple ou em marfim - essa última mais comum em instrumentos nacionais. Todos esse materiais são bons para a fabricação de braços. A escolha se dá, na maioria das vezes, pelo aspecto visual e construção (largura, comprimento, espessura).

 

O braço normalmente é feito em maple com escala em jacarandá; maple com escala em ébano; ou todo em maple ou em marfim - essa última mais comum em instrumentos nacionais. Todos esse materiais são bons para a fabricação de braços. A escolha se dá, na maioria das vezes, pelo aspecto visual e construção (largura, comprimento, espessura).

Na loja, o instrumento pode parecer horrível de tocar. Isso se dá por ele não ter sido previamente regulado. A ainda se estiver em ordem, ele pode não oferecer tudo aquilo que o músico esperava. Isso porque a pré regulagem feita para venda visa apenas da uma estabilidade padrão ao instrumento, sem direcioná-lo para nenhum estilo ou técnica em especial. É importante verificar alguns itens que citarei para saber se a tocabilidade que agora não está do agrado, poderá estar satisfatória após a regulagem de seu luthier.

Normalmente, na loja o instrumento apresenta ação de cordas alta e muitas vezes trastejamento. Verifique se isso apenas se dá por não estar regulado ou por defeitos mais graves. Preste atenção! As cordas podem estar altas porque o braço está um tanto côncavo (foto 1), precisando de ajuste no tensor. Uma forma para verificar isso é tomar o instrumento nas mãos e olhar o braço lateralmente contra a luz (foto 2), verificando a curvatura nas laterais. Se ela for pouco acentuada (foto 3) o tensor poderá corrigi-la e o instrumento ficará bom. Se for muito acentuada (foto 4) o tensor não poderá fazer milagres. Aí teremos um braço empenado.


Nas ilustrações, estamos demonstrando essas deformidades com uma régua, pois se fosse com um braço de guitarra seria mais difícil perceber o problema, já que a lente da máquina fotográfica não demonstra facilmente essas irregularidades como o olho humano.

Outro fator determinante para cordas altas e trastejamento é braço torcido. Chamamos assim o braço possui a concavidade diferente em cada um dos lados. Se a discrepância dessas curvaturas for grande (ex.: um lado está côncavo e outro convexo), esse instrumento não deverá ser comprado. Esse problema tem solução, mas o custo é muito alto e só vale a pena solucioná-lo quando um instrumento comprado anteriormente precisa ser usado e conservado.

É importante observar também nas visualizações laterais do braço (vide foto 2), se não existe alguma irregularidade em sua extensão, independente dele estar côncavo ou convexo. Se houver, pode ser irreparável mesmo depois de nova regulagem. Isso acontece por que o tensor atua no braço de uma forma geral e não corrige defeitos ou irregularidades localizadas.

O instrumento pode estar com ação de cordas baixa ou alta e trastejando da primeira a quinta casa. Deve-se verificar por meio da visualização das laterais do braço se ele não está convexo (foto 05). Se a curvatura for pouca, até poderá ser corrigida soltando-se o tensor. Também é importante verificar se as possíveis irregularidades existentes no braço não estão sendo provocadas pelo descolamento da escala. Olhe atentamente em toda a extensão, nos dois lados, e certifique-se que não há nenhum espaço entre ela e o braço (foto 06).

Uma boa parte dos instrumentos, principalmente os de headstock inclinado, possuem a madeira do braço emendada um pouco abaixo do mesmo. Passe a mão sobre essa emenda e verifique se ela não está descolando. É possível notar algum relevo se ela estiver soltando.

 

 

Trastes

Outro detalhe determinante a ser observado são os trastes. Antes de comprar um instrumento, é preciso checar se os trastes estão com seus perfis arredondados e intactos. Não pode haver marcas de limas ou lixas. Caso note alguma esteja certo que há irregularidades na escala ou na colocação dos mesmo e foi dado um “jeitinho” para que o instrumento não apresentasse trastejamento. É comum notar essas gambiarras mais no fim da escala, feitas para esconder empenamentos e torções localizadas. Preste atenção: esse tipo de instrumento não deve ser comprado. Depois vai ser preciso gastar uma grana considerável com um luthier para retificar a escala e trocar os trastes. Mas lembre-se sempre de usar o bom senso na hora de julgar um eventual trastejamento. A ação de cordas do instrumento testado pode estar baixa com intuito de torná-lo macio e confortável. Se o músico “descer a mão” na hora de tocar vai achar que está impróprio. Verifique todos os itens anteriores, faça todas as possíveis análises para poder ter critérios para um julgamento. Instrumentos com ação de cordas baixa devem ser tocados com menos força para não trastejarem. Isso não caracteriza defeito, mas sim uma opção de regulagem. Fique atento!

Por hoje é só. Na próxima edição continuaremos tratando dos cuidados que são preciso no momento da compra. Na COVER GUITARRA nº 99 vamos tratar de:

- Regulagens: verificação da forma como está regulado o instrumento, antes de tecer uma opinião sobre ele;

- Parte elétrica: verificação de captadores potenciômetros e chaves, afim de saber qual estado em que se encontram;

- Hardware: verificação das partes cromadas e mecânicas; além do estado da pintura, floyd roses e um pouco mais a respeito dos braços

Um abraço e boas compras !


 

 

 

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