1.
Qual é a sua formação? Você exercia
outra profissão antes de se tornar luthier? Qual e
por quanto tempo?
Eu seria um Psicólogo, entretanto, abandonei o que
era para ser meu primeiro ano na faculdade São Marcos
no Ipiranga em 1986, para Ter mais tempo de estudar música,
e fazer shows com minha banda na época de músicas
próprias e covers. Já tocava guitarra e era
técnico em áudio desde 1980 e como estava empolgado
com os shows em bares, e casas noturnas que estavam aparecendo
para a gente, achei “melhor” ficar tocando Deep
Purple, Led Zeppelin, Whitesnake, e o rock nacional que estava
com toda força, do que ficar na sala de aula.
2.
Como você descobriu a profissão de luthier? O
que te atraiu nela?
Bem, como eu disse, eu vivia tocando em casa, shows, aulas,
etc, e desta forma, a minha guitarra precisava sempre de reparos,
regulagens, substituição de captadores... enfim,
eu necessitava de luthiers. Naquela época não
tinha tantos como agora, lembro-me do Tagima, e talvez mais
um ou dois. A gente tinha que ir longe para regular a guitarra.
E esperar um bocado para Ter o instrumento de volta. Pois
como os luthiers eram poucos, o serviço para eles eram
demais. - E eu ficava curioso, pensando - Como será
que os luthiers fazem para transformar minha guitarra que
esta “dura” com as cordas altas, em um instrumento
macio. Confesso que isto me atraía. Ficava observando
o que faziam, entretanto não tinha coragem de fazer
na minha guitarra, com medo que estragasse. Já tinha
ouvido histórias de curiosos que mexiam e depois se
davam mal. Estragavam o braço etc. Achava fascinante
a precisão que precisa se ter para trabalhar com trastes,
ajustar o tensor, parte elétrica. Ter se um monte de
ferramentas específicas. Achava que os caras eram cientistas.
3.
Quando e como você começou a exercer a profissão,
fez algum curso, aprendeu com alguém?
A necessidade que me obrigou a começar a mexer em instrumentos.
Houve uma época em que ensaiava muito, fazia shows
em barzinhos todo o fim de semana, dava muita aula, não
tinha tempo de parar a guitarra e leva-la para as regulagens
periódicas. E não dava para ficar tocando com
instrumento ruim . Aí então comecei a me aventurar
nas pequenas regulagens. Sempre fui bom observador, e que
eu pude aprender olhando os luthiers, fui fazendo em minha
guitarra. Depois graças a uns amigos no exterior, fui
tento acesso a muitos livros importados sobre regulagens,
retífica de trastes, parte elétrica, defeitos
e reparos em braços de guitarras e contrabaixo. O assunto
me interessava, e então eu lia muito. Meu Pai me ajudou
bastante, pois havia sido marceneiro por muitos anos, e possuíamos
praticamente uma marcenaria em casa. Como eu já tinha
curso em áudio, entendia um pouco de eletrônica,
tudo foi se encaixando. Meus alunos desempenharam um papel
muito importante no meu aprendizado como luthier, pois, quando
perceberam, que eu estava me “virando” como um
regulador de guitarra, começaram a pedir que eu regulasse
as deles. Evidente que eu dizia que ainda estava aprendendo,
e podia danificar o instrumento deles. Mas a maior parte resolveu
arriscar. Como graças a Deus, eu tinha muito aluno,
acabei pegando prática e um pouco de know how. Nunca
estraguei o instrumento de nenhum deles, contudo, houve casos
que tive que levar algumas guitarras e contrabaixos, a luthiers
com mais experiência, para acabarem o reparo que eu
havia começado, e não conseguido concluir.
Mesmo com a prática e os estudos que tinha adquirido
precisava de macetes que só luthiers mais experientes
podiam passar. Então lá ía eu atrás
dos veteranos pedir ajuda e dicas. Uns ensinavam, outros,
mandava eu ir passear.
Um luthier
e grande amigo que me deu muitas dicas, foi o Tiguez. Ele
me ajudou muito. Me indicou onde conseguir ferramentas específicas,
me passou macetes e truques.
Depois disso tudo, comecei arriscar a pegar instrumentos de
pessoas desconhecidas e cobrar por isto. Estas foram se tornando
clientes, e indicando outras, e assim por diante. Como eu
disse, sempre gostei de ler, e fui sempre estudando sobre
o assunto, pesquisando, descobrindo, inventando, e desta forma,
cada vez mais, ia abandonando minhas outras atividades e me
dedicando apenas a oficina. Com passar do tempo grandes importadores
foram me credenciando com técnico autorizado de suas
marcas, e com isso, novos cursos eu ia recebendo, até
eu me dedicar inteiramente a profissão de luthier.
4. Como é
o mercado para a profissão?
O mercado é oscilante como em qualquer outro segmento.
Quando tudo vai bem, vai bem para todos. Se a quantidade de
shows para as bandas de maneira geral, é grande, os
músicos irão ganhar mais, e poderão investir
mais em seus instrumentos e com isso, mais trabalho para os
luthiers.
De qualquer modo, o mercado é convidativo para um luthier,
pelo menos para os reparadores, pois instrumentos danificados,
quebrados, ou desregulado, não funcionam, e se funcionam,
não atuam a contento. Desta forma sempre haverá
trabalho para os luthiers. A menos que inventem instrumentos
que se auto ajustem, e não se danifiquem, que acho,
que por enquanto isto esta longe de acontecer, pois, muito
pelo contrario, estão cada vez mais sensíveis
a problemas e desajustes.
9.
A profissão é bem remunerada?
Depende do referencial de “bem remunerado”
Uma regulagem completa de guitarra e contrabaixo por exemplo,
que é um serviço bem comum e necessário,
varia no mercado entre de R$.60,00 a R$.120,00 reais. Cada
profissional pratica o preço que julga suficiente para
cobrir suas despesas de funcionamento e lucro. Depende também
da região que atua, se mais diretamente com a classe
média ou alta, quantidade de clientes que atende, segmentos
que atua dentro da própria profissão –
ou seja – Se só é reparador, se constrói,
instala, modifica, customiza, projeta, etc. Todos esses fatores
interagem diretamente com resultado financeiro que o luthier
obterá com o seu trabalho.
Particularmente eu acho que um bom e honesto profissional,
consegue sobreviver no Brasil sendo um luthier.
10.
Quais as maiores dificuldades de um luthier?
São varias, mais acho que as mais significativas são:
Primeiramente, extrema dificuldade de se conseguir ferramentas
específicas para o trabalho. Exemplo: Limas e quaisquer
outras ferramentas de uso direcionado para trastes, componentes
como tensores, escalas, trastes, Flames, ...enfim, materiais
que eu diria de “primeira necessidade” que luthiers
possuíssem.
Ë possível improvisar com ferramentas e componentes
não específicos, alias, “improvisar”
é uma característica peculiar do brasileiro,
contudo, existe momentos que não se ter exatamente
o utensílio que precisa, pode comprometer o resultado
do trabalho.
Existem fora do Brasil, empresas como por exemplo, a Stewart
. Macdonald’s – GUITAR SHOP SUPPLY
em Montana USA, especializada em fornecer ferramentas e componentes
específicas para luthiers, porém importar para
o Brasil, é oneroso, devido a taxas de correio etc.
Normalmente, o luthier que pode, viaja ao Usa e compra as
ferramentas necessárias, ou as encomenda com amigos
que estejam viajando por lá. Como vê , não
é fácil ser luthier aqui no Brasil.
Outra dificuldade grande, é lidar com o cliente e satisfaze-lo,
pois muitas vezes, nem ele sabe o quer. Ë muito comum
o cliente chegar ao seu luthier e pedir que quer baixíssima
as cordas de sua guitarra, mas que não trastejem quando
ele tocar com força. Ou seja, impossível! Contudo
quando o luthier o alerta de tal verdade, o cliente coloca
em duvida a competência do técnico em questão.
Esta é apenas uma de muitas das que os luthiers tem
que passar com seus clientes. Isto porque falta informação.
Esta falta de informação faz muitas vezes um
cliente procurar um outro luthier, achando que o anterior
era incompetente ou queria engana-lo.
É claro que cada músico tende a se adequar melhor
a um luthier do que ao outro. Isto porque este conseguiu entender
melhor o que o instrumentista procurava. Porém, a falta
de informação, ainda é um problema que
o luthier enfrenta com o músico que não esta
disposto a aprender.
11.
Na sua opinião, a luthieria é um segmento ainda
pouco explorado? Por quê?
Já foi. Hoje acho que não.
A cada mês abre um novo Atelier, e surge um novo luthier.
Acho sim, que a classe ainda é muito desunida. É
cada um por si. Poucos se ajudam um ao outro. Acho também
que a maior parte se concentra nas grandes cidades, como São
Paulo, Rio de janeiro, Brasília. Cidades do interior
e até cidades grandes possuem uma enorme carência
de profissionais.
Recebo instrumentos de estados longínquos, as vezes
para fazer uma simples regulagem, porque não existem
profissionais nem perto de onde estas pessoas moram.
Acho que poderia essas cidades investirem mais nesta profissão.
12.
No Brasil, existem bons profissionais ou o mercado é
ainda carente de bons profissionais? Por quê?
Acho que possuímos aqui no Brasil profissionais de
nível internacional. Sou nacionalista, contudo, afirmo
isso com veemência, e sem nenhum sentimento patriótico.
Vejo instrumentos feito por vários colegas, e tenho
certeza que não devemos nada para os instrumentos fabricados
no exterior. Acho sim, que a dificuldade na aquisição
de materiais como, madeiras e componentes eletrônicos,
assim como um processo de industrialização eficaz
e barato, tornam o nosso instrumento oneroso, de construção
lenta, e as vezes, um pouco atrasado em tecnologia, uma vez
que melhores acessórios e componentes para guitarras
e contrabaixos não são de fabricação
brasileira. Com tudo isso, ainda acho, que com uma política
melhor de trabalho nesta área, equiparíamos
facilmente as construções estrangeiras.
13.
Como surgiu a idéia de criar o Guia?
Na verdade não sei bem de quem partiu a idéia
propriamente dita, mas ela surgiu, através da necessidade
de juntar em um mesmo lugar varias informações
sobre o mesmo assunto.
Escrevo a coluna “Pequenos reparos” na revista
Cover guitarra, desde janeiro de 1999, e venho tentado manter
uma seqüência, sem repetir temas ou informações.
Em reuniões aqui na editora, percebemos através
de e-mails e cartas recebidas, que as vezes comentamos sobre
um determinado tema à vinte edições atrás,
e um novo leitor envia dúvidas sobre este mesmo assunto,
pois desconhece que esse tópico já havia sido
colocado em pauta bem anteriormente. E isto é um problema
muito comum de acontecer.
Daí nasceu a idéia, de que se eu escrevesse
sobre os principais e essenciais tópicos que envolvem
uma guitarra, de forma que todo mundo pudesse ter acesso a
isso de maneira reunida e no momento que quisesse, resolveria
o problema da informação. A solução
era desenvolver um livro em um formato de ”.Guia”
Aí comecei pesquisar e a escrever sobre os temas a
abordados, preparamos fotos, profissionais cuidaram desde
o formato até diagramação do mesmo. Foi
um trabalho feito com muito carinho.
14.
No que ele consiste?
Em minha opinião ele consiste em guia de conhecimentos
essenciais, que aborda tópicos como - “Braço”
– Do que é feito, principais problemas, e suas
soluções. “Captadores e partes elétricas”
– O que são, e como funcionam. “Pontes
e trêmolos” – Quais os tipos, de que material
são feitos, seus problemas, e caracteristicas. “Regulagem
completa” - como é feita, o que corrige, qual
a necessidade – “Conservação, limpeza,
cuidados e dicas” – O que fazer, como fazer, e
aonde fazer, a limpeza periódica de seu instrumento.
“Faça você mesmo” - Pequeno manual
de reparos simples para o cotidiano.
Ou seja acho que um livro de cabeceira para guitarristas meticulosos.
15.
Na sua opinião, no que ele será útil
aos guitarristas?
Primeiramente dar o conhecimento necessário para que
entenda como o seu instrumento funciona, e desta forma poder
obter uma melhor performance, e também conhecer os
limites de sua guitarra.
Depois, saber quais os procedimentos que os luthiers comumente
operam nas guitarras para sanar este ou aquele problema, e
desta forma, não ser enganado, por “profissionais
espertalhões”. - E em contra partida, saber também
valorizar o trabalho que o seu luthier de confiança,
emprega no instrumento, para que o mesmo tenha uma performance
que tanto lhe agrada.
E por último, adquirir uma linguagem e um conhecimento
um pouco mais técnico, que com certeza ajudará
no momento de pedir ou explicar ao luthier, o problema, a
adaptação ou melhoria que gostaria de efetuar
no instrumento.
16 Existe algum outro projeto editorial a caminho?
Na verdade, dependendo do resultado deste primeiro, estamos
pensando em fazer uma serie de continuações.
17
Os macetes que você ensina podem ser aplicados por qualquer
guitarrista ou o músico precisa estar em um nível
específico para entender?
Não precisa ser nenhum expert, porém deve estar
mais ou menos acostumado, a trabalhos manuais desse tipo.
Os diagramas elétricos por exemplo, não são
feitos para profissionais, até porque a idéia
é apenas de ilustrar melhor o assunto, porém
é bom que a pessoa que vá querer se utilizar
dos esquemas, tenha um mínimo de conhecimento eletrônico,
se não, que o leve para quem o tenha.
18.
Qual é o maior mérito do Guia?
Na minha opinião é - Tratar de forma técnica,
clara, direta, e objetiva o funcionamento de uma guitarra
em sua forma geral, com os seus principais problemas e soluções,
tudo isso ilustrado com muitas fotos, diagramas, e desenhos.
19.
Existe algum material semelhante no mercado brasileiro ou
quem deseja algo do gênero tem de gastar com livros
importados?
Francamente desconheço se há algo parecido disponível
em português. Há muitos anos atrás surgiu,
uma obra em fascículos, que depois de juntos, transformava
se em um belíssimo livro, maravilhoso, e minha opinião.
Falava sobre problemas e defeitos de violões guitarras
e contrabaixo, assim como técnicas musicais dos mesmos.
Comentava sobre instrumentistas, também sobre amplificadores,
dava noções sobre eletrônica, enfim, muito
interessante. Esse livro chama-se “Toque” , porém
não é específico sobre luthieria, e nem
tão abrangente, mas ainda assim, “sensacional”
Fora este, infelizmente, acredito que por enquanto, só
os importados.
20.
A pessoa que deseja tornar-se luthier deve seguir que caminhos?
Acho que não existe uma regra, mas, em minha opinião,
primeiramente ter algum conhecimento musical, para que possa
julgar por si mesmo a qualidade de seu trabalho. Em seguida,
ler muito sobre o assunto, e não se contentar apenas
com teses dos outros. Criar as suas próprias convicções.
Pedir ajuda sempre a pessoas mais experientes nesta área.
Se esta não puder lhe esclarecer agora, talvez por
falta de tempo, tente outra, e outra, depois volte na primeira.
Não se envergonhe em querer saber. Assista workshops
sobre produtos, e leia muitos catálogos de instrumentos.
Participe de feiras de música. Faça estágios.
Se tiver condições, participe de cursos de luthieria,
e outros que podem lhe agregar informações importantes
no futuro, como eletrônica, áudio, machetaria,
marcenaria, etc.
Quando já
estiver atuando na profissão, seja claro, explicativo,
e extremamente honesto com seu cliente. Neste ramo não
se vai longe sendo desonesto ou enganador. Houve épocas
que se falava que os luthiers trocava os captadores originais
das guitarras por outros de Segunda linha. Ainda bem que isto
esta acabando. Não fale mal de nenhum colega de profissão.
Seja ético, e bem intencionado. Diga sempre a verdade
sobre o estado da guitarra ou contrabaixo a seu cliente. Quando
estiver representando alguma marca de instrumento como autorizado,
honre e seja leal sempre a seu compromisso, mas lembre-se
que o seu verdadeiro objetivo é o músico. Se
a sua autorizada lhe fizer por causa da qualidade do produto
em questão, enganar seus clientes, abandone-a! Seu
cliente será seu, independente, da marca do instrumento
que ele possua, e a autorizada que você representa,
além de que, quase sempre ser temporária, você
é alguém que seu cliente confia, e de forma
alguma você pode decepciona-lo.
Esses em minha
opinião, são os quesitos básicos para
engressar e sobreviver neste ramo de luthieria. Boa sorte!!
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