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Mestre em Consertos

Mestre em Consertos
Confira a trajetória de Edmar Luighi, um dos mais renomados luthiers do Brasil
Por: Cristina Judar
Fotos: Tatyana Alves

1. Qual é a sua formação? Você exercia outra profissão antes de se tornar luthier? Qual e por quanto tempo?
Eu seria um Psicólogo, entretanto, abandonei o que era para ser meu primeiro ano na faculdade São Marcos no Ipiranga em 1986, para Ter mais tempo de estudar música, e fazer shows com minha banda na época de músicas próprias e covers. Já tocava guitarra e era técnico em áudio desde 1980 e como estava empolgado com os shows em bares, e casas noturnas que estavam aparecendo para a gente, achei “melhor” ficar tocando Deep Purple, Led Zeppelin, Whitesnake, e o rock nacional que estava com toda força, do que ficar na sala de aula.

2. Como você descobriu a profissão de luthier? O que te atraiu nela?
Bem, como eu disse, eu vivia tocando em casa, shows, aulas, etc, e desta forma, a minha guitarra precisava sempre de reparos, regulagens, substituição de captadores... enfim, eu necessitava de luthiers. Naquela época não tinha tantos como agora, lembro-me do Tagima, e talvez mais um ou dois. A gente tinha que ir longe para regular a guitarra. E esperar um bocado para Ter o instrumento de volta. Pois como os luthiers eram poucos, o serviço para eles eram demais. - E eu ficava curioso, pensando - Como será que os luthiers fazem para transformar minha guitarra que esta “dura” com as cordas altas, em um instrumento macio. Confesso que isto me atraía. Ficava observando o que faziam, entretanto não tinha coragem de fazer na minha guitarra, com medo que estragasse. Já tinha ouvido histórias de curiosos que mexiam e depois se davam mal. Estragavam o braço etc. Achava fascinante a precisão que precisa se ter para trabalhar com trastes, ajustar o tensor, parte elétrica. Ter se um monte de ferramentas específicas. Achava que os caras eram cientistas.

3. Quando e como você começou a exercer a profissão, fez algum curso, aprendeu com alguém?
A necessidade que me obrigou a começar a mexer em instrumentos. Houve uma época em que ensaiava muito, fazia shows em barzinhos todo o fim de semana, dava muita aula, não tinha tempo de parar a guitarra e leva-la para as regulagens periódicas. E não dava para ficar tocando com instrumento ruim . Aí então comecei a me aventurar nas pequenas regulagens. Sempre fui bom observador, e que eu pude aprender olhando os luthiers, fui fazendo em minha guitarra. Depois graças a uns amigos no exterior, fui tento acesso a muitos livros importados sobre regulagens, retífica de trastes, parte elétrica, defeitos e reparos em braços de guitarras e contrabaixo. O assunto me interessava, e então eu lia muito. Meu Pai me ajudou bastante, pois havia sido marceneiro por muitos anos, e possuíamos praticamente uma marcenaria em casa. Como eu já tinha curso em áudio, entendia um pouco de eletrônica, tudo foi se encaixando. Meus alunos desempenharam um papel muito importante no meu aprendizado como luthier, pois, quando perceberam, que eu estava me “virando” como um regulador de guitarra, começaram a pedir que eu regulasse as deles. Evidente que eu dizia que ainda estava aprendendo, e podia danificar o instrumento deles. Mas a maior parte resolveu arriscar. Como graças a Deus, eu tinha muito aluno, acabei pegando prática e um pouco de know how. Nunca estraguei o instrumento de nenhum deles, contudo, houve casos que tive que levar algumas guitarras e contrabaixos, a luthiers com mais experiência, para acabarem o reparo que eu havia começado, e não conseguido concluir.
Mesmo com a prática e os estudos que tinha adquirido precisava de macetes que só luthiers mais experientes podiam passar. Então lá ía eu atrás dos veteranos pedir ajuda e dicas. Uns ensinavam, outros, mandava eu ir passear.

Um luthier e grande amigo que me deu muitas dicas, foi o Tiguez. Ele me ajudou muito. Me indicou onde conseguir ferramentas específicas, me passou macetes e truques.
Depois disso tudo, comecei arriscar a pegar instrumentos de pessoas desconhecidas e cobrar por isto. Estas foram se tornando clientes, e indicando outras, e assim por diante. Como eu disse, sempre gostei de ler, e fui sempre estudando sobre o assunto, pesquisando, descobrindo, inventando, e desta forma, cada vez mais, ia abandonando minhas outras atividades e me dedicando apenas a oficina. Com passar do tempo grandes importadores foram me credenciando com técnico autorizado de suas marcas, e com isso, novos cursos eu ia recebendo, até eu me dedicar inteiramente a profissão de luthier.

4. Como é o mercado para a profissão?
O mercado é oscilante como em qualquer outro segmento. Quando tudo vai bem, vai bem para todos. Se a quantidade de shows para as bandas de maneira geral, é grande, os músicos irão ganhar mais, e poderão investir mais em seus instrumentos e com isso, mais trabalho para os luthiers.
De qualquer modo, o mercado é convidativo para um luthier, pelo menos para os reparadores, pois instrumentos danificados, quebrados, ou desregulado, não funcionam, e se funcionam, não atuam a contento. Desta forma sempre haverá trabalho para os luthiers. A menos que inventem instrumentos que se auto ajustem, e não se danifiquem, que acho, que por enquanto isto esta longe de acontecer, pois, muito pelo contrario, estão cada vez mais sensíveis a problemas e desajustes.

9. A profissão é bem remunerada?
Depende do referencial de “bem remunerado”
Uma regulagem completa de guitarra e contrabaixo por exemplo, que é um serviço bem comum e necessário, varia no mercado entre de R$.60,00 a R$.120,00 reais. Cada profissional pratica o preço que julga suficiente para cobrir suas despesas de funcionamento e lucro. Depende também da região que atua, se mais diretamente com a classe média ou alta, quantidade de clientes que atende, segmentos que atua dentro da própria profissão – ou seja – Se só é reparador, se constrói, instala, modifica, customiza, projeta, etc. Todos esses fatores interagem diretamente com resultado financeiro que o luthier obterá com o seu trabalho.
Particularmente eu acho que um bom e honesto profissional, consegue sobreviver no Brasil sendo um luthier.

10. Quais as maiores dificuldades de um luthier?
São varias, mais acho que as mais significativas são: Primeiramente, extrema dificuldade de se conseguir ferramentas específicas para o trabalho. Exemplo: Limas e quaisquer outras ferramentas de uso direcionado para trastes, componentes como tensores, escalas, trastes, Flames, ...enfim, materiais que eu diria de “primeira necessidade” que luthiers possuíssem.
Ë possível improvisar com ferramentas e componentes não específicos, alias, “improvisar” é uma característica peculiar do brasileiro, contudo, existe momentos que não se ter exatamente o utensílio que precisa, pode comprometer o resultado do trabalho.
Existem fora do Brasil, empresas como por exemplo, a Stewart . Macdonald’s – GUITAR SHOP SUPPLY em Montana USA, especializada em fornecer ferramentas e componentes específicas para luthiers, porém importar para o Brasil, é oneroso, devido a taxas de correio etc. Normalmente, o luthier que pode, viaja ao Usa e compra as ferramentas necessárias, ou as encomenda com amigos que estejam viajando por lá. Como vê , não é fácil ser luthier aqui no Brasil.
Outra dificuldade grande, é lidar com o cliente e satisfaze-lo, pois muitas vezes, nem ele sabe o quer. Ë muito comum o cliente chegar ao seu luthier e pedir que quer baixíssima as cordas de sua guitarra, mas que não trastejem quando ele tocar com força. Ou seja, impossível! Contudo quando o luthier o alerta de tal verdade, o cliente coloca em duvida a competência do técnico em questão. Esta é apenas uma de muitas das que os luthiers tem que passar com seus clientes. Isto porque falta informação. Esta falta de informação faz muitas vezes um cliente procurar um outro luthier, achando que o anterior era incompetente ou queria engana-lo.
É claro que cada músico tende a se adequar melhor a um luthier do que ao outro. Isto porque este conseguiu entender melhor o que o instrumentista procurava. Porém, a falta de informação, ainda é um problema que o luthier enfrenta com o músico que não esta disposto a aprender.

11. Na sua opinião, a luthieria é um segmento ainda pouco explorado? Por quê?
Já foi. Hoje acho que não.
A cada mês abre um novo Atelier, e surge um novo luthier.
Acho sim, que a classe ainda é muito desunida. É cada um por si. Poucos se ajudam um ao outro. Acho também que a maior parte se concentra nas grandes cidades, como São Paulo, Rio de janeiro, Brasília. Cidades do interior e até cidades grandes possuem uma enorme carência de profissionais.
Recebo instrumentos de estados longínquos, as vezes para fazer uma simples regulagem, porque não existem profissionais nem perto de onde estas pessoas moram.
Acho que poderia essas cidades investirem mais nesta profissão.

12. No Brasil, existem bons profissionais ou o mercado é ainda carente de bons profissionais? Por quê?
Acho que possuímos aqui no Brasil profissionais de nível internacional. Sou nacionalista, contudo, afirmo isso com veemência, e sem nenhum sentimento patriótico.
Vejo instrumentos feito por vários colegas, e tenho certeza que não devemos nada para os instrumentos fabricados no exterior. Acho sim, que a dificuldade na aquisição de materiais como, madeiras e componentes eletrônicos, assim como um processo de industrialização eficaz e barato, tornam o nosso instrumento oneroso, de construção lenta, e as vezes, um pouco atrasado em tecnologia, uma vez que melhores acessórios e componentes para guitarras e contrabaixos não são de fabricação brasileira. Com tudo isso, ainda acho, que com uma política melhor de trabalho nesta área, equiparíamos facilmente as construções estrangeiras.

13. Como surgiu a idéia de criar o Guia?
Na verdade não sei bem de quem partiu a idéia propriamente dita, mas ela surgiu, através da necessidade de juntar em um mesmo lugar varias informações sobre o mesmo assunto.
Escrevo a coluna “Pequenos reparos” na revista Cover guitarra, desde janeiro de 1999, e venho tentado manter uma seqüência, sem repetir temas ou informações. Em reuniões aqui na editora, percebemos através de e-mails e cartas recebidas, que as vezes comentamos sobre um determinado tema à vinte edições atrás, e um novo leitor envia dúvidas sobre este mesmo assunto, pois desconhece que esse tópico já havia sido colocado em pauta bem anteriormente. E isto é um problema muito comum de acontecer.
Daí nasceu a idéia, de que se eu escrevesse sobre os principais e essenciais tópicos que envolvem uma guitarra, de forma que todo mundo pudesse ter acesso a isso de maneira reunida e no momento que quisesse, resolveria o problema da informação. A solução era desenvolver um livro em um formato de ”.Guia”
Aí comecei pesquisar e a escrever sobre os temas a abordados, preparamos fotos, profissionais cuidaram desde o formato até diagramação do mesmo. Foi um trabalho feito com muito carinho.

14. No que ele consiste?
Em minha opinião ele consiste em guia de conhecimentos essenciais, que aborda tópicos como - “Braço” – Do que é feito, principais problemas, e suas soluções. “Captadores e partes elétricas” – O que são, e como funcionam. “Pontes e trêmolos” – Quais os tipos, de que material são feitos, seus problemas, e caracteristicas. “Regulagem completa” - como é feita, o que corrige, qual a necessidade – “Conservação, limpeza, cuidados e dicas” – O que fazer, como fazer, e aonde fazer, a limpeza periódica de seu instrumento. “Faça você mesmo” - Pequeno manual de reparos simples para o cotidiano.
Ou seja acho que um livro de cabeceira para guitarristas meticulosos.

15. Na sua opinião, no que ele será útil aos guitarristas?
Primeiramente dar o conhecimento necessário para que entenda como o seu instrumento funciona, e desta forma poder obter uma melhor performance, e também conhecer os limites de sua guitarra.
Depois, saber quais os procedimentos que os luthiers comumente operam nas guitarras para sanar este ou aquele problema, e desta forma, não ser enganado, por “profissionais espertalhões”. - E em contra partida, saber também valorizar o trabalho que o seu luthier de confiança, emprega no instrumento, para que o mesmo tenha uma performance que tanto lhe agrada.
E por último, adquirir uma linguagem e um conhecimento um pouco mais técnico, que com certeza ajudará no momento de pedir ou explicar ao luthier, o problema, a adaptação ou melhoria que gostaria de efetuar no instrumento.
16 Existe algum outro projeto editorial a caminho?
Na verdade, dependendo do resultado deste primeiro, estamos pensando em fazer uma serie de continuações.

17 Os macetes que você ensina podem ser aplicados por qualquer guitarrista ou o músico precisa estar em um nível específico para entender?
Não precisa ser nenhum expert, porém deve estar mais ou menos acostumado, a trabalhos manuais desse tipo. Os diagramas elétricos por exemplo, não são feitos para profissionais, até porque a idéia é apenas de ilustrar melhor o assunto, porém é bom que a pessoa que vá querer se utilizar dos esquemas, tenha um mínimo de conhecimento eletrônico, se não, que o leve para quem o tenha.

18. Qual é o maior mérito do Guia?
Na minha opinião é - Tratar de forma técnica, clara, direta, e objetiva o funcionamento de uma guitarra em sua forma geral, com os seus principais problemas e soluções, tudo isso ilustrado com muitas fotos, diagramas, e desenhos.

19. Existe algum material semelhante no mercado brasileiro ou quem deseja algo do gênero tem de gastar com livros importados?
Francamente desconheço se há algo parecido disponível em português. Há muitos anos atrás surgiu, uma obra em fascículos, que depois de juntos, transformava se em um belíssimo livro, maravilhoso, e minha opinião. Falava sobre problemas e defeitos de violões guitarras e contrabaixo, assim como técnicas musicais dos mesmos. Comentava sobre instrumentistas, também sobre amplificadores, dava noções sobre eletrônica, enfim, muito interessante. Esse livro chama-se “Toque” , porém não é específico sobre luthieria, e nem tão abrangente, mas ainda assim, “sensacional”
Fora este, infelizmente, acredito que por enquanto, só os importados.

20. A pessoa que deseja tornar-se luthier deve seguir que caminhos?
Acho que não existe uma regra, mas, em minha opinião, primeiramente ter algum conhecimento musical, para que possa julgar por si mesmo a qualidade de seu trabalho. Em seguida, ler muito sobre o assunto, e não se contentar apenas com teses dos outros. Criar as suas próprias convicções. Pedir ajuda sempre a pessoas mais experientes nesta área. Se esta não puder lhe esclarecer agora, talvez por falta de tempo, tente outra, e outra, depois volte na primeira. Não se envergonhe em querer saber. Assista workshops sobre produtos, e leia muitos catálogos de instrumentos. Participe de feiras de música. Faça estágios. Se tiver condições, participe de cursos de luthieria, e outros que podem lhe agregar informações importantes no futuro, como eletrônica, áudio, machetaria, marcenaria, etc.

Quando já estiver atuando na profissão, seja claro, explicativo, e extremamente honesto com seu cliente. Neste ramo não se vai longe sendo desonesto ou enganador. Houve épocas que se falava que os luthiers trocava os captadores originais das guitarras por outros de Segunda linha. Ainda bem que isto esta acabando. Não fale mal de nenhum colega de profissão. Seja ético, e bem intencionado. Diga sempre a verdade sobre o estado da guitarra ou contrabaixo a seu cliente. Quando estiver representando alguma marca de instrumento como autorizado, honre e seja leal sempre a seu compromisso, mas lembre-se que o seu verdadeiro objetivo é o músico. Se a sua autorizada lhe fizer por causa da qualidade do produto em questão, enganar seus clientes, abandone-a! Seu cliente será seu, independente, da marca do instrumento que ele possua, e a autorizada que você representa, além de que, quase sempre ser temporária, você é alguém que seu cliente confia, e de forma alguma você pode decepciona-lo.

Esses em minha opinião, são os quesitos básicos para engressar e sobreviver neste ramo de luthieria. Boa sorte!!



 

 

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