| Este
capítulo apresenta explicações sobre
alguns conceitos e dados técnicos utilizados para caracterizar
a qualidade e o desempenho de humbuckers e single coils de
maneira geral. Desmistifica certas atribuições
e “poderes” dados a eles, e apresenta elementos
de cunho determinantes ao funcionamento, e atuação
de todas as características referentes ao modelo em
questão.
Nos
próximos capítulos, comparo alguns captadores
entre si com a finalidade de fazer com que o leitor possa
ter um “sopro” de conhecimento para, no momento
da escolha do captador que melhor adeque-se às suas
necessidades, sinta-se mais seguro para digerir as especificações
técnicas.
Vamos
relembrar alguns conceitos já apresentados no Guia
da Guitarra, volume I. Captador é um transdutor de
energia, nome este dado a qualquer dispositivo eletrônico
ou eletromagnético usado para converter energia física
em elétrica. Eles convertem a energia de vibração
da corda de um instrumento em impulsos elétricos de
corrente alternada, que alimentam o amplificador. Este por
sua vez, trata e multiplica a intensidade de tais impulsos
e os conduz para um alto falante, que os transforma novamente
em energia sonora.
Mais
um dado importante a ser lembrado é que captadores
de bobina única, assim chamados de single coil, (Foto
01) possuem a característica congênita de gerarem
“hum” (ruído), pois suas bobinas são
vulneráveis a interferência de radiações
eletromagnéticas proferindo ruídos espontaneamente.
Para eliminar tal problema, um engenheiro da Gibosn, Self
Lover, “deu a luz” em 1955 a um captador então
chamado humbucker (Foto 02) que, por ser constituído
de duas bobinas enroladas em série, porém defasadas,
propiciava que qualquer interferência indesejada passassee
por uma bobina com sinal positivo, e pela outra com sinal
negativo. Como as duas correntes viajam em direções
opostas, elas se cancelavam e o zunido não passava
para o amplificador. Para garantir que as bobinas não
cancelem também as correntes geradas pela vibração
das cordas, a extensão dos pólos relativa a
cada bobina tem polaridades magnéticas opostas que
anulam por completo este incomodo ruído.
Tal
invento gerou, com o passar do tempo, possibilidades de ligações
e combinações múltiplas que proporcionam
ao instrumento uma gama enorme de timbres e desta forma, grande
versatilidade.
No
capítulo VI vocês visualizarão diagramas
com diversas possibilidades de ligações, e desta
forma conseguir possibilidades ímpares de timbres.
Porém gostaria de esclarecer que existem outros critérios
que podem modificar a sonoridade dos captadores.
Primeiramente
é importante frizar que captadores agem diferentemente
em cada guitarra, pois cada instrumento possui um tipo de
madeira. Mesmo as feitas com o mesmo tipo elas podem ser cortadas
de peças diferentes. Desta forma, seu timbre pode ter
sido modificado.
Vários
elementos interferem na performance de um captador:
- Tipo de madeira;
- Densidade da madeira;
- Desenho do corpo;
- A forma como captador é preso no corpo do instrumento.
(Se preso direto na madeira, ou através de escudos
ou molduras);
- Qualidade de propagação dos apoios (ponte
e capotraste);
- Tipo de trastes que possui o instrumento;
- Regulagem do instrumento;
- Altura dos captadores (proximidade dos mesmos à corda).
Como
você percebe tudo é relevante no quesito “resposta
dos captadores”. Talvez o maior problema com relação
à indicação e/ou julgamento de um captador,
seja o fato de que o timbre é julgado através
do gosto e referencial. Por exemplo: para um determinado músico,
som pesado pode ser aquele que o Steve Morse consegue em sua
guitarra; para outro pode ser o falecido Dimebag Darrel (ex
Pantera). Ou seja, o referencial de pesado é diferente
para cada um, assim como a beleza do timbre é diferente
para quem ouve.
Sintetizando,
o elemento de maior peso no julgamento do desempenho e da
“beleza” do timbre de cada captador é o
gosto pessoal, a necessidade e o estilo de cada músico.
Então, tudo o que você ler neste livro, seja
por especificação técnica do fabricante
ou por minha opinião pessoal, não é unanimidade
e isso deve ser considerado. Para uma melhor interpretação
costumo criar uma escala de valores que funciona como indicador
comparativo entre os captadores. Esta escala não possui
nenhum critério técnico ou eletrônico
que possa ser medido por algum equipamento. Bastam apenas
o ouvido e percepção deste que vos escreve.
Para que não fique apenas o meu gosto como referência,
coloco também a especificação técnica
do fabricante para que as informações não
sejam tendenciosas.
Um
outro ponto relevante é que tais especificações
de freqüências dadas pelo fabricante - ou a sugerida
por mim ou qualquer outro luthier (como o captador X possua
8 de graves, 6 de médios e 4 de agudos)- significa
a predisposição de captação que
o humbucker, no caso, possui.
Um
microfone feito para captar melhor as freqüências
agudas, não faz com que um vocalista que possua o tom
grave de voz passe a cantar agudo, e sim atua melhor captando
as freqüências agudas que existe na voz do suposto
vocalista.
No
instrumento, ocorre a mesma coisa. Um captador com 10 de agudos,
por exemplo, deve ser entendido como aquele que atuará
de maneira perfeita numa que possuir 10 de agudos, trabalhando
com excelência, tais freqüências.
De
maneira alguma, uma guitarra com timbre "abafado",
terá seu som corrigido perfeitamente com a troca de
um captador. Uma escolha mais apurada valoriza as freqüências
que menos “aparecem”, atenuando aquelas de maior
profusão, dando a idéia de uma correção
no timbre da guitarra. Contudo, este instrumento não
terá o mesmo brilho de um outro construído especialmente
para tal característica.
Como
dito acima, uso uma escala de 0 a 10 para dar proporção
da freqüência de cada captador e para a comparação
de "potência de saída" (output). Alguns
fabricantes também utilizam métodos semelhantes
de comparação e identificação
de freqüências, entretanto para identificação
do output, empregam uma unidade de medida chamada milivolts
(mV), obtida por meio de aparelhos eletrônicos e métodos
específicos, o que proporciona uma leitura com melhor
exatidão da “potência” do captador.
Apenas para ilustrar: quanto maior o valor em milivolts, maior
a saída do captador (Força, volume, potencia
de modo geral). Nos próximos capítulos, os captadores
os quais os fabricantes disponibilizam os valores em milivolts,
tais “medidas” estarão também dispostas
junto com as demais classificações, para que
possam melhor avaliar o captador.
Existe também uma outra referencia de medida bastante
utilizada, que é o valor da “resistência”
oferecida pelos fios das bobinas (enrolamento total da bobina).
A unidade de medida é o “Ohm” O, e a grosso
modo também, quanto maior a resistência maior
a saída do captador. Ex. um captador de 17k, possui
uma resistência de 17.000 ohms, inferior a um modelo
de 20K. Todos os elementos de avaliação quando
conferidos e somados, proporcionam maior veracidade ao resultado.
Você
verá também informações com relação
ao tipo de ímã (cerâmico ou alnico). Existem
diferenças entre eles desde a sua confecção,
ate à sonoridade que ajudam a proporcionar. O magneto
em alnico é talvez o mais antigo. É uma liga
feita em alumínio, níquel e cobalto. Uma de
suas características é "operar" melhor
as freqüências de graves, médios e agudos
em comparação ao magneto cerâmico. O ímã
cerâmico, por sua vez, possibilita a construção
de captadores de maior saída que aqueles de alnico.
Neste
livro há referências sobre o tipo de alnico utilizado
(alnico 2, alnico 5 etc). Esse dado técnico, talvez
o menos relevante com relação ao desempenho
e qualidade do captador, mostra-nos a capacidade magnética
do imã utilizado.
Segundo
Arsídio G. Castro Junior, técnico reparador
de captadores especializado de marcas como, Seymour Duncan
e Dimarzio, o do tipo alnico não indica a qualidade
que o captador oferece, e sim a armazenagem de magnetismo
que o mesmo consegue reter. Alnico 1, por exemplo, indica
que este ímã possui aproximadamente um milhão
de linhas magnéticas, por milímetro quadrado
(mm²), enquanto o Alnico 5 indica cinco milhões
de linhas magnéticas por milímetro quadrado,
e assim sucessivamente. (esses valores são aproximados
e apenas referenciais) .Isso ajuda a determinar o tipo de
timbre, não a qualidade do mesmo.
Segundo
fabricantes, uma outra característica interessante
desses ímãs é que o alnico, a cada dez
anos, perde por volta 50% de sua capacidade magnética,
enquanto o cerâmico, a cada 70 anos perde apenas 1%
de sua capacidade. É por essa razão que muitos
"vintagers" apreciam magnetos em alnico, pois tal
propriedade, após determinado tempo assume uma identidade
característica de uma época especifica. Alguns
imãs precisam ser recarregados após muitos anos.
Box:
Vintage é um termo criado na indústria de vinhos
para definir a data da colheita. Esse termo é uma combinação
de Vint (of the vine = do vinho) com age (time of creation=
idade). Desde então o termo vintage é empregado
por colecionadores de carros, instrumentos, móveis,
e outros, para representar uma peça antiga e original.
Vamos
comentar mais especificamente sobre singles, stacks e mini
humbuckers, ou humbuckers em formato de single. Uma vez que
o single coil gera ruídos (hum) espontaneamente - algumas
regiões, como o Brasil, que não possui o terceiro
pólo na tomada de força (terra) (Foto 03) –
este torna-se ainda mais proeminente. Para tentar sanar tal
problema, fabricantes de captadores desenvolveram um modelo
semelhante a um humbucker, (com duas bobinas) porém
reduzidas, e sobrepostas ao invés de paralelas, e batizaram-no
de "Stack", (Foto 04) que traduzindo ao pé
da letra significa empilhar. Outro detalhe importante, é
que o single coil tradicional opera apenas com um imã,
(independente das extensões polares aparentes) (Foto
05) enquanto o stack utiliza 6 magnetos independentes que
transpassam as bobinas. Semelhante em aparência ao tradicional
single, mas sem o “genético” ruído.
A função do Stack é apenas de cancelar
o ruído, e tentar preservar as características
sonoras de um single tradicional. Embora, em tese, ele se
pareça com um humbucker, não é considerado
como tal. Mesmo atingindo a meta de eliminar o "Hum",
alguns músicos não sentem-se satisfeitos com
esse captador, argumentando que parte da cristalinidade inerente
ao single coil, é perdida.
Fabricantes
no mundo inteiro estão sempre criando novos modelos,
para tentar satisfazer os ouvidos mais apurados. Paralelamente
aos stacks existem os humbuckers em formato single, ou também
chamados de "mini humbuckers". Estes sim, agem como
humbuckers em toda sua extensão, além de fabricados
como tal (duas bobinas em um único imã). Eles
possuem diversas configurações de extensões
polares, como barras paralelas, parafusos fixos ou ajustáveis,
trilhos, etc. (Foto 6a, 6b, 6c, 6d) e podem ter a sutileza
de um brando humbucker, e a saída e o ataque de um
captador poderoso. Contudo, é importante salientar
que muito embora possa ter o output de um humbucker tradicional
(assim com suas freqüências) a área de "captação"
de um mini humbucker é menor (Foto 07) do que um humbucker
propriamente dito (Foto 08) uma vez que o mesmo é do
tamanho de um single. Desta forma, a região captada
na guitarra também será menor, e, por conseguinte,
freqüências e corpo do som podem ser atenuados
(ou até intensificados, dependendo do caso), de maneira
geral.
Embora
os humbuckers em formato single, se adequam melhor aos espaços
já dispostos nas guitarras (como nas strato), e substituam
com louvor os tradicionais humbuckers em alguns casos, ainda
assim não podemos dizer que são absolutamente
iguais. Em alguns casos o humbucker ainda é mais indicado.
Consulte sempre seu luthier de confiança no momento
da substituição de um captador, ou quaisquer
outras customizações.
Edmar
Luighi
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