| Quando o músico procura um luthier, pedindo que ele regule seu contrabaixo por estar trastejando, ou com a tocabilidade “dura”, existe uma grande possibilidade dos trastes estarem desnivelados entre si. Isso causa trastejamento, pois, a ausência de uniformidade entre eles ocasiona também uma irregularidade de apoio de um traste para o seu posterior.Ex.: O terceiro traste por estar mais baixo que o quarto, não proporciona a altura de corda adequada para que a mesma soe livremente.
O que pode acontecer também, é que ao invés do terceiro estar mais baixo, o quarto pode estar mais alto, no entanto os mesmos sintomas serão percebidos, por isso sugiro que o diagnóstico final seja dado pelo seu luthier de confiança.
Além de trastejamento, trastes marcados, ásperos, amassados, causam desconforto ao tocar, pois as depressões neles apresentadas servem de obstáculos para as cordas, fazendo com que os vibratos, e até mesmo notas “secas”, não fluam naturalmente.
Também, para que seja conseguida uma ação de cordas baixa, é necessário que os trastes estejam micrometricamente alinhados entre si, como comentado acima, para que não haja trastejamento.
No momento da regulagem o luthier, normalmente irá verificar se existe algum traste solto pressionando-o contra a escala para certificar se há algum movimento (foto 01). Caso haja, esse ou esses trastes deverão ser colados para que no momento da retífica não se movimentem e acabem por sendo gastos de maneira irregular.
Após essa operação, a escala será isolada pelo luthier, principalmente se for de cor clara, maple, marfim, para que não haja riscos que macule sua aparência. A forma mais comum é o uso de fita adesiva (fita crepe). (foto 02)
Agora os trastes já estão prontos para serem retificados. A ferramenta usada para essa operação é uma lima fina pouco abrasiva, ou pedra de carburundum (a mesma usada para amolar facas). Essa operação é a mais delicada, pois todos os trastes devem ser atingidos por igual e com a mesma intensidade (foto 03), até considerando o abaulamento da escala, pois se assim não for, podem ser danificados e desnivelados mais ainda, de forma até irreparável, tornado a troca de trastes inevitável. Por isso, só profissionais experientes estão capacitados para essa operação.
O próximo passo, com o auxílio de uma lixa d’água n° 240 (foto 04), será reduzido os riscos deixados pela lima ou pela pedra, passando a lixa na mesma direção que anteriormente fora utilizada a lima. Da mesma forma que o passo anterior, nenhuma região deve ser atritada mais que a outra, para que não se crie nenhum desnível nos trastes.
O uso da lima ou da pedra, ao nivelar os trastes entre si, tende a deixá-los com um formato achatado, pois retiram aquela forma arredondada, causando além de um aspecto de trastes velhos, um possível indício de trastejamento, uma vez que sua superfície de atrito, que agora achatada, ficou maior, fazendo com que as cordas possam trastejar sobre o próprio traste tocado. Além do que, uma vez que sua superfície de atrito está ampliada, também ampliado será o campo de movimentação da corda, podendo tornar o instrumento um pouco “duro” ao ser tocado.
Para evitar esse tipo de problema é que os luthiers mais especializados se utilizam de uma lima especialmente desenhada para sanar essa dificuldade, pois tem um formato abaulado, de vários tamanhos para se adequar aos vários tipos e tamanhos de trastes. (normalmente essas limas são importadas, particularmente desconheço sua fabricação no Brasil). Essa lima é trabalhada em um traste por vez, devolvendo-lhe o formato arredondado (foto 05 e 06). É preciso experiência também no emprego dessa ferramenta, pois ela pode deixar o traste torto ou riscado, se não usada corretamente.
Concluída essa etapa, é hora do luthier limar as laterais dos trastes para que os mesmos não machuquem as mãos do músico. Essa operação também é feita com uma lima fina atingindo praticamente todos os trastes ao mesmo tempo. É utilizada levemente inclinada para a parte de dentro da escala. (foto 07). A mesma lima usada para arredondar os trastes ou outra bem parecida é usada para acertar as pontas das laterais superiores, que também podem causar desconforto ao músico. (foto 08)
Agora vem o acabamento. Com o auxílio de uma lixa d’água n° 600 e em seguida uma de n° 400, são retirados os riscos deixados pelos processos anteriores. Nesse processo também se aplica as lixas sobre os trastes com a mesma pressão e número de repetições.
O uso de uma esponja de aço (daquelas das mais finas, comuns em cozinha), agora traste à traste, sem muita pressão, porém com várias repetições, se faz necessário, para o polimento e eliminação completa dos riscos. (FOTO 09)
Agora é só tirar a fita adesiva com cuidado, limpar a escala, e hidratá-la com algum tipo de óleo, sem encharcar (recomendo óleo de limão, produto importado, e de uso dirigido a essa função), e concluir outros itens da regulagem.
Insisto que esse tipo de trabalho seja feito por seu luthier de confiança para que você possa conservar seus trastes por muito tempo.
Obs. Antes de todos esses procedimentos, o luthier verificará o estado do braço com relação a existência de torções e empenamentos, ajustará o tensor de forma que a escala fique mais reta possível para o fret work. Caso haja no braço algumas dessas irregularidades citadas acima, os procedimentos serão outros.
Um abraço e bons Slaps!
Edmar
Luighi |