Um dos pontos comuns, em conversas com músicos e fãs da boa música em geral, reside em questionar os rumos que a cultura de massa vem tomando, desde a constatação de que temos voltado os olhos para o passado, que o diga a proliferação de ótimas rádios de Classic Rock, termo bacana e muito difundido na horda de profissionais liberais que tocam guitarra e ajudam a carregar, firme e forte, a bandeira do rock.
A bela capa da edição da revista Wired que marcou a virada do milênio (devidamente enquadrada aqui nesta sala) nos mostra um anjo pulando sobre um precipício e a frase : Here we Go.....
Cá estamos nós! Quase cinco anos após ao respectivo salto, meio perdidos (usando eufemismo) e tentando achar algum sentido nisto tudo, que temos vivido.
Talvez a necessidade de estarmos olhando tanto, para um passado próximo, está justamente nessa falta de chão que nossa época nos propicia.
Chega a ser, de certa forma cômico como a cultura trash dos anos oitenta alcançou status de clássico, em que muitos ícones do ridículo são cultuados.
Qualquer época pretérita oferece conforto; sendo assim, qualquer ameça é controlável, não oferecendo o risco e o mistério do amanhã, nem a incerteza do momento.
O “ Auto Tune”, plugg- in, usado no sistema Pro Tools de gravação, tornou-se um certo exemplo de como a música , uma arte de muitos riscos (que nem sempre se consegue calcular), tenha se tornado um pátio de cimento seco, cuja beleza natural de um lago pantanoso foi anulada e corrigida por gramas e lagos “virtuais”.
A correção de “pitches” das notas , de maneira indiscriminada e deslavada, prova a insegurança que os artistas possuem, na qual a esterilidade e a falta de vida tem sido o lugar de destino da arte, mostrando uma assepsia que não condiz com a mesma.
Era costume na China Antiga, medir as crises sociais de cada povoado do Império, pela má qualidade da música produzida...
Nem se fale então medir a qualidade da música de consumo de massa (cada qual que seja seu próprio guia neste quesito); todavia podemos muito facilmente tomar um padrão de comparação.
Independente da fé, aí vai uma experiência pessoal: durante alguns cultos religiosos (católicos, evangélicos e budistas) que acompanhei, pude constatar que nas comunidades em que a relação entre pregador e fiéis fosse conduzida de maneira mais saudável e sincera , o coral (de leigos, não músicos) era afinado naturalmente (às vezes de maneira impressionante!), já, onde o pregador não comunicava a mensagem de maneira clara, conduzindo os caminhos da crença para a fé, o resultado musical refletia o mesmo.
Cabe então o questionamento: será que é possível um dia a tecnologia criar um “afinador” para a sintonia da música das esferas em que cada qual carrega no íntimo de seu ser?
Responda-me caro leitor....Estou na escuta...