"A
imagem de um deserto evoca sentimentos de isolamento, abandono
e um vazio aparente que leva a nossa própria alma
a se encontrar.Foi no deserto que Cristo se isolou e foi
tentado três vezes ;é o deserto que representa
a energia da vida manifestada através de sua singela
força latente(sejam pelos cactos,cobras,lagartos
ou aves locais); é o deserto,também , o lugar
onde o mar foi vencido pela terra e pelos ventos..."
O filósofo
Slovaj Zizak usa essa imagem no título da obra: “Bem-vindo
ao deserto do real”, na qual decreta a falência
de argumentos dos próprios filósofos em relação
ao vazio sócio-cultural onde estamos , momento em
que o culto à personalidade e à dicotomia
entre o bem e o mal parecem conceitos datados; todas circunstâncias
que, de maneira subliminar, porém direta, atingem
na coluna cervical de toda nossa cultura pop e cenário
musical.
Parece
que cada vez mais a ênfase é numa arte funcional
que assume seu papel e importância tanto quanto um
chaveirinho comprado em loja de R$ 1,99...aproximando o
artista na função de fabricante do mesmo,
seja como entretenedor de massas em festas ufânicas
histéricas, vendendo refrigerantes “da onda”
ou alimentando sonhos e desejos falsos para uma geração
ansiosa em ocupar o palco e receber as luzes e aplausos.
Prova deste fato
é a estatística de que as grandes vendas de
revistas especializadas em música disparam com ganchos
e capas de “do it yourself”... seja através
de dicas de como tocar, gravar ou soar mais alto, muito
mais que colocar o Satriani, Vai ou Van Halen na capa.
Como diria o profético
poeta da penumbra Kurt Cobain, tudo isso tem cheiro de “espírito
adolescente”...
Percebemos então, caros amigos, que o fenômeno
“Big Brother” não é predicado
exclusivo da cultura de massa que nós, roqueiros
convictos, sempre fizemos questão de atacar (parafraseando
Jack Black no filme “Escola de Rock”: o rock
tem sempre que atacar “O Homem”,seja o sistema
ou o que for...).
Se por um lado
tocar um instrumento , se comunicar e expressar através
do mesmo é uma forma única de elevação
espiritual, por outro a vaidade que cerceia o meio musical
e sua indústria pouco tem a ver com a mesma.
Grandes descobertas
são processos que surgem na fronteira entre a extrema
dedicação e o extremo abandono, o choque entre
estes dois polos é que faz a mágica acontecer
neste jogo de perdas e ganhos feito para uns poucos corajosos
, malucos e iluminados.
Cá estamos nós, prezados combatentes , neste
novo deserto humano feito de muito concreto, luz, desperdício
e isolamento, no meio de uma enorme multidão dopada
que pula com a trilha sonora feita de beats eletrônicos,
feedbacks e ruídos de modem....