Com a chegada revolucionária
do baixo elétrico na década de 50, aos poucos
o instrumento acústico teve suas funções
direcionadas a outros estilos. Ele, assim, passou a ser
utilizado em locais de ambiência mais apropriada.
Do início
dos anos 20 até o final da década de 40, todas
as formações musicais, principalmente as grandes
bigs bands, utilizavam-se do grande contrabaixo acústico.
Carinhosamente conhecido como big dog house (casinha de
cachorro grande), os baixistas daquela época “penavam”
para extrair uma maior sonoridade dele. Isso porque o contrabaixo
acústico, em sua concepção estrutural,
foi criado para ser usado em ambiente fisicamente apto para
possibilitar uma maior expansão das ondas sonoras.
Naqueles tempos, somente os grandes teatros possuíam
tal condição. É importante ressaltar
que o contrabaixo acústico, ao contrário do
baixo elétrico, tem como principal técnica
de execução a utilização do
arco. Quando essa peça é usada, o nível
de sonoridade é compatível com a ambiência.
Os baixistas que não trabalham em orquestras sinfônicas,
porém, utilizam os dedos para obter o som do instrumento.
É justamente aí que os problemas começam.
Tocado em forma de pizzicato, a sonoridade diminui drasticamente.
Além disso, o pobre contrabaixista daquela época
ainda estava cercado de instrumentos de sopro por todos
os lados. Fato esse que contribuía, de forma decisiva,
para que o som do “gigante” não fosse
suficiente audível, comprometendo o resultado da
música tocada
O
fim do sofrimento
Que
sofrimento, não? Mas essa tortura estava perto do
fim. Por ironia do destino, o homem responsável por
uma das maiores revoluções em termos de instrumentos
não era um engenheiro acústico, muito menos
um luthier especializado em construção de
modelos revolucionários. Como foi dito na edição
passada, era um simples técnico de rádio apaixonado
por amplificação de sinal sonoro: Clarence
Leo Fender.
O criador da guitarra
e do contrabaixo elétrico gostava de ouvir música
ao vivo. O lendário inventor nasceu na área
de Fullerton/Anaheim, sudoeste da Califórnia, em
1909. No final dos anos 30, ele abriu uma oficina de concerto
de rádios chamada Fender Radio Service. Seus serviços
eram procurados por muitos músicos, principalmente
para reparos nos cabos e sistemas de captadores dos violões
eletrificados utilizados na época. Mas, para que
o primeiro baixo elétrico fosse criado, foi necessário
que a guitarra elétrica viesse antes.
Ao efetuar reparos
e ajustes nos instrumentos, Leo Fender se preocupava em
melhorar o volume e o sinal de saída dos captadores
usados para a amplificação. Os instrumentos
eletrificados começavam a tornar-se uma constante
na oficina do lendário inventor. Dessa forma, no
final do ano de 1946, Leo Fender montou uma nova empresa
chamada Fender Electric Instrument Co. Foi nesse período
que o projeto da guitarra Telecaster nasceu. Apesar de sucesso
de vendas, Fender tinha investido muito dinheiro nessa empreitada
e o retorno financeiro foi, praticamente, para pagar dívidas.
O extraordinário criador precisava de algo novo.
Então, observando o tamanho, o desconforto e principalmente
a falta de sonoridade, ele resolveu projetar um novo instrumento,
algo que pudesse substituir a velha “ casinha grande
de cachorro”. Foi no ano de 1951 que o mundo conheceu
algo extraordinário. Era um novo contrabaixo! E muito
menor que o gigante. Portanto, mais fácil de tocar
e transportar
Algo de
revolucionário no novo protótipo
Com o corpo maior
que o da guitarra Telecaster e provido de quatro cordas
- originais do contrabaixo acústico, pois as que
seriam utilizadas no instrumento elétrico ainda não
tinham sido inventadas -, o novo protótipo possuía
algo revolucionário. Ele tinha trastes. Ao contrário
do contrabaixo acústico, era possível emitir
qualquer nota da escala com absoluta precisão. E
foi isso que Leo pensou. “Vai se chamar Precision
Bass porque é preciso”. O corpo foi fabricado
em ash da cor amarela e foi revestido com um escudo plástico
(pickguard) preto. Provido de 20 trastes, o braço
foi feito de maple. Os mecanismos de tarraxa eram adaptados
do contrabaixo acústico. O sistema de captação
era um simples single coil. Existiam também dois
knobs. Um para o controle de volume e outro para a tonalidade.
Fabricada de inox, a ponte era provida de dois suportes
- um para cada par de cordas - construídos de fibra
prensada.
As
inovações técnicas não paravam
nesses quesitos. Antecipando que os futuros músicos
utilizariam o polegar para tocar - a exemplo da guitarra
elétrica -, foi elaborada uma pequena peça
de formato retangular, que possibilitou que o baixista apoiasse
os demais dedos da mão direita (indicador, médio
e anular) enquanto seu polegar estivesse tocando. Leo Fender
denominou tal dispositivo de fingers rest. Existiam ainda
duas placas cromadas que cobriam os captadores e a ponte.
É importante ressaltar que essas pequenas engenhocas
não tinham apenas função decorativa.
O escudo instalado sobre os pick ups, por exemplo, deveria
proteger o conjunto de captadores. Por cima da ponte, uma
pequena peça de borracha foi concebida com o objetivo
de abafar as notas (rubber string mute).
Parece difícil aos baixistas do século XXI,
acostumados com a excelente sonoridade de um moderno instrumento
ativo plugado em um amplificador de última geração,
compreender que o Precision Bass foi concebido com a intenção
de imitar o som do baixo acústico. Para entender
tudo isso, é preciso aprender a ouvir não
somente a música daquela época como também
ter conhecimento sobre as profundas mudanças e o
impacto que o lendário Precision Bass ocasionou.
Pouco a pouco, o gigante teve suas funções
direcionadas a outros estilos como o jazz. E, portanto,
passou a ser executado em locais de ambiências acusticamente
tratadas, nos quais cada nota poderia ser ouvida com toda
a dignidade que o contrabaixo acústico merece.