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História do Contrabaixo - Parte IV
[por Nilton Wood]

“ESTE CARA ENLOUQUECEU!”

Entusiasmo, preconceito ou simplesmente medo do novo? Sem contar com a mídia a seu favor, Leo Fender começou a divulgar seu novo invento junto a lugares e pessoas que poderiam se interessar pelo Precision Bass. Foram os primeiros passos de um instrumento que iria alterar, com sua sonoridade, a música em nosso planeta.

Estamos em 1952. Local: um bar em Nashville, no Tennessee. Já naquela época, a música country era a preferida em muitos lugares. De repente, um respeitável senhor entrou com um estranho instrumento na mão.

Os freqüentadores comentaram:
- Parece uma guitarra, mas é maior!
- Aquele não é Leo Fender, o cara que inventou a guitarra elétrica?
- É ele mesmo! Imagine que ele está com uma nova invenção: um baixo elétrico!

Até que ele teve uma boa idéia quando fez a guitarra elétrica, mas... um baixo? Este cara enlouqueceu!

Salvo raras exceções, estes eram os comentários que nosso herói ouvia por onde quer que levasse o seu pioneiro Precision Bass - um instrumento estranho para a maioria dos baixistas, menor, mais leve, que poderia emitir as notas com maior sonoridade e precisão pela presença de trastes, no qual o sinal era amplificado - para que fosse testado pelos usuários das quatro cordas.

Eram tempos difíceis para o lendário inventor - não se esqueça que a guitarra elétrica ainda estava em sua infância. Apesar de ter um imediata aceitação pelos músicos na época, ela era algo totalmente novo e, como tudo que é novidade neste mundo, os puristas de plantão já apareciam com um amontoado de críticas, muitas delas sem o menor sentido. O criador do “P bass” (como era carinhosamente chamado o primeiro baixo da história) enfrentou resistências muito maiores do que com a lendária Telecaster em seus primeiros tempos.

Naquela época, o marketing para um produto como o Precision Bass era inviável. Panfletos e pequenos anúncios foram uma solução econômica.

Figura 1

A figura 1 ilustra um dos primeiros prospectos, com a figura do Precision junto ao nosso conhecido Bass Man.

A solução foi entrar com a cara e a coragem no lugar onde os baixistas pudessem conhecer sua invenção - gravadoras, shows e bares - mas com uma pequena observação: que todos os locais trabalhassem com música country, o estilo preferido de lendário inventor.

As coisas começaram mal, já que muitos poucos baixistas se interessaram pela novidade. Uma exceção foi Joel Price, que comprou o primeiro Precision Bass e o levou para Nashville para tocar na Orquestra Grand Ole Opry, no final de 1952.

Os baixistas que tocavam o “gigante” na época argumentavam que o instrumento de Fender, apesar de mais leve, não tinha uma sonoridade satisfatória (os médios, em algumas freqüências, sobrepunham-se aos graves).

Além do mais, por ser um instrumento completamente diferente do baixo acústico, a técnica ao tocar tinha que sofrer drásticas mudanças, que não estavam sendo bem aceitas pelo músicos, seja por comodismo ou simplesmente pelo medo da novidade.

Os avanços mais promissores, por um capricho do destino, não vieram do estilo do qual Leo tanto gostava. O jazz foi a porta de entrada do revolucionário instrumento. No final de 52, ele encontrou o vibrafonista e bandleader Lionel Hampton.

Muitos anos depois, o próprio Hampton contou a história ao baixista Christian Fabian. “O Lionel me contou que ele tinha uma jazz session com seu baixista Roy Johnson. Foi quando encontraram ‘aquele cara com aquele troço” (risos). Roy ficou curioso e resolveu experimentar o novo baixo. No decorrer do ensaio, ele notou que muitas pessoas (inclusive ouvintes e músicos) estavam prestando uma maior atenção não somente no Precision como também na sonoridade que ele produzia.

A superioridade sonora sobre o velho gigante era evidente”, relembra Fabian. Leo ficou tão contente com os resultados daquela histórica tarde que resolveu deixar o instrumento para Roy experimentar em seu trabalho, não sem antes deixar seu telefone de contato, no caso de algum baixista se interessasse pelo instrumento. Um mês depois, Leo já tinha recebido mais de 100 pedidos!

Em 30 de julho de 52, o jornalista Leonard Feather, da revista Down Beat, publicou uma reportagem com um fato ocorrido durante a gig de Lionel Hampton. A reportagem mencionava que todos os presentes estavam surpresos, pois alguma coisa estava errada com aquela banda. “As pessoas perguntavam onde estava o baixista? Ele não estava lá, mas todos podiam ouvir o som do instrumento”, conta Feather. “Teve gente que ficou pasma ao pensar que haviam dois guitarristas... Só que um olhar mais atento revelava que o novo instrumento não tinha seis, mas quatro cordas, além de ter o formato um pouco maior que a guitarra tradicional”.

Finalmente, o quadro se completou: o baixista estava tocando um novo instrumento! A dramática mudança que o reforço nos graves propiciou à banda - sonoridade, novas timbragens, possibilidade de experimentar novos moldes harmônicos, melódicos e rítmicos, sem falar na repercussão favorável na mídia da época - fizeram com que Hampton decidisse incorporar, de forma definitiva, o baixo elétrico em seu trabalho. Todos esses personagens, mais algumas centenas de baixistas, estavam mudando, sem saber, o curso da história da música.

Figura 2

No final daquele ano, o baixista Monk Montgomery (irmão do guitarrista Wes) substituiu Johnson na banda de Hampton.

“Antes de entrar no grupo, Lionel disse que eu teria que tocar em um baixo elétrico. Não somente eu como vários baixistas, que amavam o contrabaixo acústico, considerávamos a invenção de Leo como um instrumento de segundo plano.

Éramos adversários ferrenhos do Precision, mas procurei esquecer tudo isso e me adaptar aos novos tempos”, conta Montgomery.

A figura 2 ilustra uma peça publicitária realizada no final dos anos 50, na qual Monk aparece com um P Bass.

Figura 3

O jazz ainda ajudou o P Bass por meio da figura do baixista Shifte Henry, que trabalhava em Nova York em diversos grupos.

O músico não apenas aprovou o primeiro baixo elétrico da história como também foi seu primeiro endorser (figura 3).

Apesar do relativo sucesso obtido no meio jazzístico, o Precision Bass conseguiu finalmente atingir a sua merecida fama em outro segmento, no qual o velho Leo jamais sonhou: o rock & roll. Mas esta é uma história para a próxima edição....

 

 

 

 

Nilton Wood
· Professor de contrabaixo no Instituto de baixo e tecnologia do EM&T, e editor técnico da revista Cover Baixo. Foi coordenador e professor de várias escolas e projetos de músicas, como, conservatório Souza Lima, Conservatório Brooklin Paulista, Centro Experimental de música do Sesc, entre outros. Participou também de importantes Orquestras Sinfônicas do País, bem como de diversos trabalhos de Música de Câmara.
Sua especialidades de ensino são:
· Técnicas avançadas de Mão Esquerda.
· Técnicas avançadas de Mão Direita
· Double Thumb Pluck Technique.
· Thumb Technique.
· Tapping.
· Técnica de contrabaixo Fretless – 4, 5 e 6 cordas.
· Harmonia, arranjos e improvisação.


 

 

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